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quinta-feira, 7 de março de 2013

A mulher amiga das bicicletas


Ela vai de bicicleta


Por Gisele Regatão


Department of Transportation/NYC
Janette em Nova York: adição de 450 quilômetros de ciclovia à cidade 
nos últimos cinco anos, além de praças para pedestres

Entre seus admiradores, ela é chamada de "JSK", em referência ao famoso ex-presidente americano John F. Kennedy. Os inimigos preferem outro apelido, Chaka Khan, em homenagem à exagerada cantora de funk dos anos 1970.
Mas é provavelmente unanimidade entre todos que poucas pessoas transformaram tanto a cidade de Nova York quanto Janette Sadik-Khan, a secretária de Transportes. Desde que foi nomeada pelo prefeito Michael Bloomberg em 2007, ela dobrou a quilometragem de ciclovias na cidade, para um total de 800 quilômetros, e transformou 13 ruas em praças para pedestres, incluindo uma no meio de Times square. Outras 50 estão em construção.
Neste último ano do seu mandato, Janette sentou para conversar com o Valor no seu escritório perto de Wall Street em Manhattan, num edifício que ainda está sendo reparado dos estragos causados pela tempestade Sandy em outubro. Ela falou sobre suas maiores conquistas, seus desafios e sua visão para a cidade do futuro. Disse também que é "louca pelo Brasil", país que já visitou seis vezes. São Paulo, Rio, Curitiba... mas a sua cidade favorita é Salvador. "Adoro a comida, as barracas e o fato de que a deusa do mar, Iemanjá, seja uma mulher."
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Valor: Ciclovias têm sido uma prioridade tão grande do seu governo que algumas pessoas a apelidaram de "secretária de bicicletas". Por que ciclovias são tão importantes para a senhora e elas podem ser viáveis em cidades como São Paulo, Rio e Salvador?
Janette Sadik-Khan: Ciclovias e bicicletas são uma importante forma de trazer equilíbrio para uma cidade. Quando você olha como as cidades crescem e florescem, em muitos casos você pode mudar o papel do asfalto, para priorizar maneiras mais eficientes de se locomover. Um ônibus pode levar 40 pessoas, enquanto um carro geralmente leva 1. Você pode desenhar uma cidade de uma forma que seja mais fácil caminhar, o que é bom para a saúde e também diminui o impacto ambiental de emissão de dióxido de carbono. E é muito fácil pintar ciclovias, e tornar fácil para as pessoas se locomoverem em duas rodas, e também seguro para todos. Acho que uma das nossas maiores conquistas tem sido melhorar a segurança das ruas de Nova York. Os últimos cinco anos têm sido os mais seguros nas ruas na história da cidade desde que dados começaram a ser coletados, em 1910. Nossas ruas estão mais seguras, com a adição de 450 quilômetros de ciclovia nos últimos cinco anos; nossas ruas estão mais atraentes, com 50 ruas que estão sendo transformadas em praças para pedestres; nossas ruas estão mais eficientes, com seis novas rotas de ônibus rápido em toda a cidade; nossa infraestrutura está em bom estado de manutenção. Então nossas estradas, pontes e barcos estão nas melhores condições que já tiveram em muitas gerações. Gastamos mais de US$ 5 bilhões nisso apenas nos últimos cinco anos. Em todas as medidas temos feito enorme progresso. Nossas ruas estavam congeladas no tempo por quase 50 anos. A visão era a de olhar para a rua através do para-brisa e pensar como fazer os carros se moverem o mais rápido possível do ponto A para o ponto B. Em Nova York, metade dos residentes nem tem carro. Um terço dos moradores se locomove a pé, um terço usa sistema de transporte público e um terço usa carro. O que estamos tentando fazer é incluir as pessoas que caminham e usam transporte, para que elas tenham o mesmo peso no planejamento urbano de uma cidade de uma alta classe mundial. Queremos trazer comunidades para a mesa para participar do planejamento e replanejamento das ruas.
Valor: Muitas cidades brasileiras têm um percentual grande de motoristas. A senhora acha que elas podem ter ciclovias viáveis?
Janette: Sim, eu acho. Tem muito trabalho para ser feito em São Paulo, por exemplo. Mas a cidade também tem feito muito progresso construindo novas linhas de metrô. Acho que existe um entendimento de que o mundo dos pedestres é importante para o funcionamento e a atratividade da cidade, e também para a vitalidade econômica da cidade, porque os pedestres gastam mais do que pessoas que dirigem ou pessoas que usam transporte coletivo. Você precisa investir em criar espaços públicos atraentes, porque nos dias de hoje empresas podem mudar para qualquer lugar, pessoas podem viver em qualquer lugar, e existe uma competição mundial para quem pode ser mais "verde", e essa é uma ótima competição. Existem muitas cidades nos Estados Unidos e no mundo investindo massivamente em ciclovias e sistemas de transporte de bicicletas, porque sabem que são estratégias importantes para uma cidade atrair empresas, pessoas e visitantes.
Valor: Mas a criação de ciclovias em Nova York não tem sido um processo fácil politicamente. Alguns bairros se opuseram a elas, e um percentual muito pequeno de nova-iorquinos usa bicicleta para ir ao trabalho, menos de 2%. A senhora acha que a bicicleta vai se tornar um meio de transporte das massas?
Department of Transportation/NYC
Ciclovia protegida e espaço para pedestres na Herald square: 
medidas levam a considerável crescimento das vendas no comércio
e à ocupação de mais imóveis no entorno
Janette: O público está na frente dos políticos. Mesmo considerando essa suposta guerra contra as ciclovias, 66% dos nova-iorquinos são a favor delas; 72% dos nova-iorquinos apoiam o programa de aluguel de bicicletas que estamos prestes a implementar. O ciclismo tem quadruplicado na cidade nos últimos cinco anos. Se você constrói eles aparecem, e as pessoas votam com seus pedais. Mas cada vez que você muda o status quo demora um pouco, e sempre tem reação contra. Os nova-iorquinos são muito apaixonados por suas ruas, da mesma forma que tenho certeza que os paulistanos também são. Numa grande cidade, as ruas são os nossos jardins, a gente interage com elas todos os dias, e mudar a forma como elas operam pode demorar um pouco, mas estamos encontrando exigências para mais ciclovias, mais áreas de pedestres. Se não estivesse funcionando, outras cidades não estariam copiando o nosso modelo. Estão replicando nosso modelo em Chicago, San Francisco, Washington DC. Acabo de ir a Buenos Aires e eles me contaram que estudaram o website do Departamento de Transporte de Nova York por seis meses e copiaram nossos modelos de ciclovias, ônibus rápido, praças de pedestres. E queremos que as cidades sejam mais sustentáveis, mais verdes, porque as cidades são o futuro. A metade da população mundial vive em cidades, e esse percentual vai crescer dramaticamente nos próximos 30 anos. Temos que fazer tudo o que podemos para que as cidades sejam bem-sucedidas e funcionem para todos. E estamos vendo resultados em dinheiro. Na primeira ciclovia protegida em Nova York, as vendas de varejo aumentaram 49%. Na área de pedestre que criamos em Dumbo, no Brooklyn, as vendas aumentaram 172%. Quando fizemos o mesmo no norte de Union square, em Manhattan, o número de imóveis vazios diminuiu mais de 40%. O que a gente percebe é um grande apoio de lojas e empresas para essas iniciativas, porque eles perceberam que boas ruas querem dizer bons negócios. Por isso Times square é hoje um dos dez maiores centros de varejo do mundo. Não era esse o caso antes de criarmos áreas de pedestres em Times square. As pessoas não iam à praça para olhar o trânsito. Elas queriam olhar o cruzamento famoso de ruas e agora têm o espaço para desfrutar dessa experiência: 365 mil pessoas usam aquela área diariamente, e 90% do espaço era dedicado aos carros, era totalmente desequilibrado. Muito do trabalho é simplesmente trazer equilíbrio para as cidades, tratar com acupuntura os pontos de congestão, para aliviar os pontos de tensão. É importante para a saúde pública, a segurança, a economia e para ser sustentável.
Valor: Criar uma praça de pedestres na Times square não parece um pensamento muito convencional. Menos ainda em cidades de países em desenvolvimento, como o Brasil. A senhora acha que elas sempre funcionam ou elas podem atrapalhar e criar áreas de congestionamento?
Janette: Elas têm que ser colocadas em áreas de grande densidade e atividade, onde há muitas lojas. Desde Times square, que tem uma das estações de metrô mais populosas do mundo, até East Nova York, no Brooklyn, no fim da linha 3 do metrô, num bairro pobre, onde criamos uma área de pedestre que se tornou o orgulho da região. Ela une a comunidade de uma maneira muito importante. Essas áreas de pedestre também cumprem um papel cívico importante: são lugares onde as pessoas se reúnem e conversam, são lugares seguros para sentar-se e relaxar. Muitas cidades são como Nova York - são ótimas para caminhar, mas não existem muitos lugares para se sentar. Por isso trabalhamos num programa de bancos. Instalamos mil bancos pela cidade. Eles são cruciais para fazer que as pessoas desfrutem a cidade. Cada cidade é diferente, você tem que adaptar a estratégia dependendo do lugar, tem que considerar os ativos, examinar onde quer crescer, quais são as áreas que precisam de ajuda, e então você considera qual é a melhor combinação de ferramentas - uma área de pedestres aqui, uma passarela acolá, um sistema de ônibus rápido. Não existe uma única fórmula para todos os lugares.
Valor: Congestionamentos ainda são um grande problema. O prefeito Michael Bloomberg tentou criar um sistema de imposto sobre o trânsito, mas ele não foi aprovado na Câmara e Senado do Estado de Nova York. Como resolver engarrafamentos?
Janette: Em Nova York, eu acho que algum sistema de taxa vai ser adotado. A questão não é se vai ser adotado, mas quando. Temos que usar taxa como uma forma de controlar o trânsito, mas também para gerar recursos para financiar o sistema de transporte público. Temos um dos sistemas mais extensos de transporte público do mundo, 1.160 quilômetros de trilhos, 469 estações, com uma enorme dívida. A única forma de sair do buraco seria por meio de um novo sistema de receita, e um programa de taxa de trânsito é fundamental para isso. O sistema de transporte público de Nova York é o coração da cidade, e a saúde desse sistema está diretamente ligado à saúde da cidade.
Valor: Mas como criar um sistema de taxa que tenha apoio público e político?
Janette: Temos que examinar todo o sistema. Talvez existam áreas onde podemos diminuir os pedágios, áreas onde não há transporte público. E podemos criar pedágios em áreas com bom transporte público. Examinar quem paga, e qual é a infraestrutura disponível, é uma boa forma de racionalizar o sistema de transporte de Nova York. Se você chegasse de Marte, acharia que a pessoa que desenvolveu os sistemas de pedágio era louco. Precisamos de uma forma muito mais racional de incentivar como o trânsito se move.
Valor: A senhora tem menos de um ano de mandato sobrando. Se tivesse apenas uma coisa para fazer, o que seria?
Janette: Há coisas que estão no meu controle, outras não. Estou muito focada em melhorar a segurança das ruas. Alta velocidade causa um quarto das fatalidades nas ruas de Nova York, e uma das coisas que a gente pode fazer para diminuir o número de colisões seria colocar câmeras de velocidade, especialmente perto de escolas.
Valor: Por que elas ainda não foram instaladas? São Paulo tem câmeras na cidade inteira.
Janette: Eu sei. Precisamos de aprovação de lei em Albany (capital do Estado de Nova York). E você sabe quanto isso é difícil. Eu também espero ver 6 mil bicicletas operando no nosso novo sistema de aluguel de bicicletas a ser efetivado em maio, continuar o programa de ônibus rápido, continuar a seguir em frente em segurança, em mobilidade e desenvolvimento. E estamos documentando nosso progresso e a reação da comunidade e de outras cidades do mundo. Você pode pintar a cidade que quer ver. Não tem que levar anos e anos. Você pode experimentar e tentar novas ideias. E, se não funcionar, pode mudar. Mas temos que continuar na tarefa de tornar as cidades mais verdes e mais vivíveis.




quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A mulher que transformou Nova York no paraíso dos ciclistas

fonte: folha de são paulo


Nova York virou paraíso dos ciclistas graças a uma mulher
 porRAUL JUSTE LORES
 
 
24 horas depois do furacão Sandy atingir Nova York, em 28 de outubro, o prefeito Michael Bloomberg anunciou que a secretária de Transportes, Janette Sadik-Khan, tinha um plano para o caos que se instalou no trânsito da cidade --sem metrô e sem semáforos, graças ao blecaute.
 
 
"Só carros com três passageiros ou mais poderão entrar em Manhattan. Até o fim de semana, os ônibus circularão com a catraca livre", determinou.
 
Os nova-iorquinos já se acostumaram com as medidas às vezes radicais da mulher que manda no trânsito da maior cidade americana.
Em cinco anos no cargo, a superpoderosa secretária de Transportes de Nova York abriu 450 km de ciclovias, 50 km de corredores de ônibus e fechou várias praças aos carros --a mais famosa delas, a Times Square, tornou-se um grande calçadão.
Reduziu o número de pistas da Broadway pela metade, dobrando as calçadas dos dois lados e espalhando cadeiras e mesinhas.
 
 
 
 
 

 
Ciclovias reduziram em 40% o número de acidentes com ciclistas,
diz secretária dos Transportes de Nova York.
 
 
 
 
Pela velocidade com que está transformando a paisagem nova-iorquina, ela é amada por ciclistas e odiada com igual intensidade por taxistas.
 
Magra, com corpo forte de quem pedala e faz ioga, um orçamento anual de R$ 4 bilhões e mais de 4.500 funcionários em sua equipe, Janette, 51, é igualmente retratada em reportagens de urbanismo e em publicações de estilo.
É uma rara política de olfato fashion, bronzeada e de corpo torneado, destoando do clichê das burocratas de tailleurs.
Formada em ciência política e em direito pela Universidade Columbia, era vice-presidente de uma grande empresa de engenharia quando foi "descoberta" por Bloomberg.
"Antes, a política de transporte se resumia a aumentar a velocidade dos carros na cidade. Para mim, o mais importante de tudo é priorizar o pedestre, o ciclista e o transporte público", disse à Serafina, em seu escritório, em um arranha-céu com vista para o East River e o Brooklyn, no distrito financeiro de Manhattan.
 
 
 
SECRETÁRIA DAS BIKES
 
"Diziam que os lojistas da Times Square perderiam muito dinheiro quando fechássemos a praça ao trânsito, e o contrário aconteceu. A renda do varejo duplicou em três anos, a frequência triplicou, e os pedestres, quando podem circular em paz, acabam gastando mais ali", explica.
"O espaço para carros e pedestres estava distribuído de forma desigual, havia 70 pedestres para cada dez carros."
Depois dessa experiência, ela acabou fechando pistas ao lado da Madison Avenue e da Herald Square e transformando parte da Broadway em um semicalçadão. Mais de 50 pracinhas como essa foram criadas em quatro anos.
 
"Tudo foi feito de forma simples, com mesas e cadeiras baratas. Se desse certo, faríamos algo de longo prazo, com design melhor", conta, dizendo que as obras definitivas para a nova Times Square começam no final do ano, com projeto dos arquitetos do escritório norueguês Snohetta.
Os críticos da secretária, entretanto, a acusam de impor esses "testes" como algo permanente. "Mudar um banco de praça na cidade pode levar anos de burocracia. Por isso, fazemos algo mais simples, de forma direta, para medir o resultado", rebate.
 
Janette também recebeu saraivadas pela pressa com que implantou as ciclovias (em cinco anos, ela fez 450 km; São Paulo tem 55 km de ciclovias e 67 km de ciclofaixas, que funcionam aos domingos).
A secretária já foi processada por moradores do bairro Prospect Park, no Brooklyn, que se opunham à ideia (eles perderam a ação).
O tabloide "New York Post" fez piada com o seu cargo e a chamou de "secretária das bicicletas". Mesmo gente da prefeitura já criticou a extensão das ciclovias.
O secretário de Segurança, Ray Kelly, disse que nem sempre concorda com ela e que "a criação das ciclovias aumentou a responsabilidade dos policiais em tempos de mão de obra escassa".
 
Ela defende a cria: "As ciclovias reduziram em 40% o número de acidentes com ciclistas na cidade. Quando o ciclista precisa se aventurar no meio dos carros, sem proteção, ele é muito vulnerável, como acontece com os pedestres".




 

 
Janette Sadik-Khan, a poderosa secretária de Transportes de Nova York
Janette Sadik-Khan, a poderosa secretária de Transportes de Nova York,
na Times Square
 
 
 
 
Outra obsessão da secretária é aumentar a velocidade dos ônibus. "Eles precisam ser competitivos com o carro e o metrô."
Janette fez um estudo que listou 400 variáveis que interferem na velocidade dos veículos, da cobrança da passagem à maneira como a cidade poda suas árvores, asfalta as ruas ou bloqueia os maiores cruzamentos. "Vamos resolver um por um", promete.
"Trabalho para Bloomberg, que é movido a números. Preciso ter todos os dados na ponta da língua", brinca, e dá uma risada alta. Fica evidente que adora o que faz.
 
Não para de receber pedidos de missões de prefeitos e governos, de Istambul ao México e outras grandes cidades americanas, que querem conhecer suas soluções mais de perto.
Circulando agitada pelo escritório, enquanto mostra gráficos e maquetes do que está por vir em Nova York, ela conta que o programa de compartilhamento de bicicletas (que já existe em São Paulo e no Rio), inspirado nos sucessos de Paris e Barcelona, só começará em março.
 
"Estamos chegando tarde, mas será um dos melhores do mundo, com 420 postos e 10 mil bicicletas", promete.
 
 
 
SÃO PAULO
 
Mas ainda há lombadas no trabalho da secretária. Apesar da queda de 75% nas mortes em acidentes de trânsito entre 2007 e 2011, um estudo preliminar da prefeitura diz que as mortes voltaram a subir entre julho de 2011 e junho de 2012.
Segundo esse estudo, o número de mortes anuais no trânsito de Nova York está em 291 (na cidade de São Paulo, são cerca de 1.200).
Mais da metade dessas mortes foi causada por motoristas alcoolizados e desrespeito ao sinal vermelho.
Ela diz que já identificou 25 cruzamentos onde a população de terceira idade se concentra.
Quer que o semáforo seja um pouco mais lento nesses lugares, para permitir que os mais velhos atravessem com segurança.
E vai começar uma nova campanha educativa para os nova-iorquinos, que insistem em atravessar a rua enquanto mandam mensagens de texto pelo celular.
 
"Todo nova-iorquino se acha um engenheiro de tráfego, cheio de soluções, mas estão muito desatentos na hora de atravessar", reclama.
 
Janette, que mora com o marido e o filho adolescente no Village e pedala para ir ao trabalho todos os dias, já esteve várias vezes no Brasil, onde sua cunhada morou alguns anos, em Salvador. "Adoro Trancoso, Paraty, Rio, Bahia, São Paulo, a música brasileira, a cultura, as pessoas."
 
Pergunto se o trânsito de São Paulo tem jeito. "Claro. O solo paulistano é mais propício que o de Nova York para o metrô, e transporte de massa é a solução", diz. "Vocês têm uma cultura vibrante, mas precisam aprender a valorizar o espaço público e o pedestre", alerta.
"Hoje em dia, empresas e talentos podem escolher onde se instalam, a tecnologia facilitou a mobilidade. Quem tiver uma cidade interessante, onde se possa caminhar, conhecer gente, sem ficar preso no trânsito, vai sair na frente na atração de investimentos."
Ela compara com sua cidade: "Em Nova York, só um terço das pessoas vai de carro para o trabalho. E esse número não pode crescer".