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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Bicicleta paga mais imposto do que carro no Brasil

  • Estudo obtido com exclusividade pelo GLOBO revela que, na
  • contramão da economia verde, alta carga tributária coloca ‘magrelas’ nacionais entre as mais caras do mundo.


A fábrica Verden Bikes em SP produz cerca de 40 mil bicicletas por ano
Foto: Agência O Globo / Marcos AlvesRIO - Embora tenha crescido no país o discurso pró-bicicleta, pelas vantagens ambientais, na saúde da população e para desafogar o trânsito, o governo tributa mais as “magrelas” que os carros, beneficiados por incentivos fiscais, que podem ser prorrogados até 2014. Segundo estudo obtido com exclusividade pelo GLOBO e elaborado pela Tendências Consultoria para a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike), o imposto que incide sobre as bicicletas no país é de 40,5% em média, contra 32% dos tributos no preço final dos carros, de acordo com levantamento da Consultoria IHS Automotive no Brasil. A falta de incentivo fica claro na comparação do IPI: a alíquota do tributo federal é de 3,5% para carros populares, contra 10% para as bicicletas produzidas fora da Zona Franca de Manaus (ZFM, onde há isenção, mas que produz apenas 21% do total do país).
Com isso, o Brasil tem umas das bicicletas mais caras do mundo. Uma bike comum, aro 26 e 21 marchas, vendida em média a R$ 400 no Brasil, é cerca de 54% mais cara que uma similar nos Estados Unidos, onde sai por R$ 259, segundo pesquisas em sites de compras. A bicicleta dobrável, ideal para uso de forma integrada ao transporte público, custa R$ 640 no Brasil, contra R$ 477 na Alemanha.
- Com todos os benefícios da bicicleta me parece descabido este elevado grau de impostos. A população tem se conscientizado, algumas cidades estão criando infraestrutura de ciclovias e ciclofaixas, mas falta, ainda, a questão tributária - afirmou Marcelo Maciel, presidente da Aliança Bike, que reúne 53 empresas do setor.
Venda pode subir 14% com preço baixo
Segundo o estudo, em média, uma bicicleta que sai de uma fábrica brasileira tem seu preço elevado em 68,2% devido aos impostos, levando em conta o mix de produção do Brasil, uma vez que a produção de Manaus, 21% do total, tem menos impostos. Levando em conta apenas o preço de uma bicicleta fabricada no resto do país, os tributos elevam em 80,3% seu preço, ou seja, nestes casos, uma parcela de 44,5% do preço final das bikes é tributos.
Para Daniel Guth, consultor da Associação de Ciclistas Urbanos da Cidade de São Paulo (Ciclocidade), a tributação e seu impacto no preços é fundamental para estimular o uso das bicicletas no país. Segundo ele, do total de bicicletas vendidas no Brasil, 50% são destinadas ao transporte, 37% vão para as crianças, 17% usadas para lazer e 1% para corrida:
- Temos dados que mostram que 30% das pessoas que usam bicicletas no país têm renda de até R$ 600. E uma bicicleta não sai por menos de R$ 500, então o fator preço pesa muito.
Segundo a economista Carla Rossi, da Tendências, uma redução de 10% do preço pode gerar aumento imediato de 14% nas vendas no Brasil. Ela estima que, por causa do preço, o mercado das bikes, de cinco milhões de unidades em 2011, chegará a 5,9 milhões em 2018, enquanto que o potencial, com um preço mais justo, seria de 9,3 milhões de unidades.
- E uma redução nos impostos poderia auxiliar até na formalização do setor, com cerca de 40% das 235 fabricantes do país informais, de pequeno tamanho.
Quem não quer entrar na informalidade acaba se transformando em importador. É o caso da RioSouth, empresa carioca que planejava fabricar bicicletas elétricas em solo fluminense. Mas os sócios da empresa fizeram as contas e viram que suas bicicletas, que hoje custam de R$ 3 mil a R$ 4 mil - no caso da elétrica dobrável - sairiam 30% mais caras:
- Teríamos o imposto de importação de peças, pois motores e baterias não são feitos no país, e o elevado custo da mão de obra. Não conseguiríamos incentivos, pois somos pequenos. No fim, decidimos fazer o design das bicicletas e fabricá-las na China - disse Felipe Tolomei, sócio da empresa. - E esse preço ainda é alto por causa de impostos, muitos consumidores acabam optando por comprar uma scooter, que sai a partir de R$ 4 mil.
E não é apenas o preço final que afasta os usuários. Renato Mirandolla, gerente da Dádiva Bike, pequena distribuidora de peças e que também produz algumas bicicletas na capital paulista, diz que os caros insumos castigam os mais humildes:
- Um pneu de bike custa cerca de R$ 30. Um trabalhador que use sua bicicleta todo o dia precisa fazer a troca a cada dois ou três meses, isso pesa no orçamento.
Tablets substituem bikes
Everton Francatto, diretor comercial da Verden Bikes, fábrica que produz cerca de 40 mil bicicletas por ano no interior paulista, afirma que hoje o maior problema do setor é o preço. Ele lembra que uma bicicleta para o dia a dia no Brasil custa cerca de R$ 500, contra valores entre € 80 e € 120 na Alemanha:
- A nossa maior preocupação é justamente nas bicicletas infantis, que custam cerca de R$ 300. Nessa faixa temos uma forte concorrência com o eletrônico. Hoje o sonho de Natal das crianças não é mais a bike, é um tablet, e isso gera problemas de saúde para esta geração.
Ele explica, ainda, que apesar do setor poder integrar o Supersimples, o ICMS encarece o produto. As bicicletas estão enquadradas no conceito de substituição tributária. Pelo regime, o valor do imposto é cobrado tanto da indústria quanto do varejo, antes que o produto seja de fato comercializado. Para tanto, é realizada uma estimativa do valor final do produto ao consumidor e é feito uma cobrança quando o produto cruza uma divisa estadual.
Procurado pelo GLOBO na sexta-feira, o Ministério da Fazenda informou que não teve tempo hábil para comentar a reportagem.

fonte: o globo




quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Usar bicicleta como meio de transporte sai mais barato, diz estudo

Economia pode chegar a R$2.700,00 por ano




RIO - Desistir da ideia de comprar um carro e usar uma bicicleta para ir ao trabalho todos os dias pode significar uma economia de até R$ 2.700 por ano, segundo um estudo da Coppe, o programa de pós-graduação em engenharia da UFRJ. Cálculos dos pesquisadores mostram que pedalar consome aproximadamente R$ 0,12 por quilômetro - um sexto da despesa referente a veículos movidos a gasolina, que chega a R$ 0,76.
O levantamento, coordenado pelo aluno de mestrado Marcelo Daniel Coelho, levou em conta o preço de uma bicicleta nova, a compra de acessórios, a depreciação e a manutenção do equipamento. A pesquisa foi feita com base em percursos de 20 km por dia no Rio e em Porto Alegre, simulando os trajetos de ida e volta para o trabalho durante a semana.
A média anual de gastos com uma bicicleta na capital fluminense é de R$ 519, levando em conta sua compra e a substituição periódica de peças, como freios, correntes e pneus. O custo da pedalada ficou abaixo do uso do carro a gasolina (R$ 3.219 por ano), da moto (R$ 2.029) e até do ônibus (R$ 1.367).
"O gasto inicial com a compra de um automóvel é muito alto, o que favorece a bicicleta nessa comparação. Em vez de gastar R$ 30 mil para comprar um carro, eu posso pagar R$ 600 em uma boa bicicleta e aplicar a diferença em um fundo de investimentos, por exemplo", explica Coelho.
Além do custo relativamente baixo, a bicicleta também supera o carro particular pois não paga impostos anuais, como o IPVA, e dispensa o consumo de combustível. Para o pesquisador, é preciso expandir a estrutura disponível para ciclistas para evitar um excesso de veículos nas cidades brasileiras. "A bicicleta não precisa ser um transporte direto para o trabalho. Ela pode servir como um meio de integração a sistemas de transporte público", diz Coelho, que defende a instalação de bicicletários em pontos de ônibus, e estações de trens e metrô.
No Rio, a prefeitura promete expandir a estrutura de bicicletários para facilitar o acesso de ciclistas aos meios de transporte de massa. Enquanto isso não acontece, o prefeito Eduardo Paes permitiu que bicicletas fiquem presas a postes, desde que não obstruam o trânsito de pedestres e veículos.
Também foram criadas na cidade 13 zonas preferenciais para ciclistas, em que a circulação de carros fica restrita à velocidade máxima de 30 km/h. Segundo o subsecretário de Meio Ambiente do município, Altamirando Fernandes, a medida tem o objetivo de criar vias preferenciais para o uso de bicicletas, mesmo onde não há ciclofaixas. "É impossível ter uma rede cicloviária que cubra toda a cidade, então podemos criar ambientes amigáveis para os ciclistas", afirma Fernandes.
Com base nas contas apresentadas na pesquisa da Coppe, o especialista em mobilidade José Lobo calcula que conseguiu economizar quase R$ 30 mil desde que decidiu vender seu carro, há 11 anos. Ele passou a depender apenas da bicicleta - apelando para táxis ou carros alugados quando fosse necessário.
"Como eu já usava bicicleta para ir a reuniões e eventos, meu carro ficava parado na garagem quase todos os dias. No início de 2000, quando chegou a hora de pagar o seguro e o IPVA, achei melhor vender e depender só da bicicleta", conta ele, que é presidente da ONG Transporte Ativo.
Lobo também cobra a implantação de mais ciclovias nas cidades, mas garante que a circulação de ciclistas e motoristas nas mesmas vias é possível e seguro, desde que todos respeitem as leis de trânsito. "Pode ser apavorante pedalar ao lado de carros quando não há ciclovias ou ciclofaixas, mas é apenas uma questão de adaptação. Um motorista que acaba de tirar sua carteira de motorista também tem medo, mas percebe que é uma atividade segura depois que se acostuma", compara.
fonte: por Bruno Boghossian/ O Estado de São Paulo

segunda-feira, 24 de junho de 2013

"O carro é o cigarro do futuro"



O carro é o cigarro do futuro


Por Luis Gutierrez, diretor da EMBARQ na América Latina


De acordo com Jaime Lerner, o escapamento do carro é novo fumo passivo. O visionário arquiteto, urbanista e ex-prefeito de Curitiba há muito tem sido claro a respeito do crescente estigma social em torno do uso de veículos particulares. 
De fato, Lerner prevê que o carro particular em breve se tornará um incômodo social tal qual o cigarro: “Você pode usá-lo”, diz, “mas as pessoas vão se sentir incomodadas”. Em uma palestra no III Congresso As Melhores Práticas SIBRT na América Latina, Lerner insistiu nesse ponto, afirmando que “não há futuro para as cidades se elas dependerem apenas dos carros”. 
Apesar da certeza de Lerner, o número de veículos privados no Brasil tem aumentado nos últimos anos. De acordo com o Banco Mundial, existem atualmente 209 veículos particulares por mil pessoas no país, contra 164 há dez anos. No mesmo período, a demanda pelo transporte coletivo caiu 33%, de 60 milhões de passageiros por dia para 40 milhões. 
Então o que deixa Lerner tão confiante de que os carros particulares serão trocados pelo transporte coletivo? 
Segundo ele, são três os seus aliados na luta contra a cultura do carro: congestionamentos cada vez maiores, danos ao meio ambiente e a alta qualidade do transporte coletivo.


Trânsito e congestionamento

Imagine ficar em uma sala de 50 m² com uma pessoa fumando um cigarro. Agora imagine estar na mesma sala com 50 pessoas, todas fumando, e você não pode sair. 
Para Lerner, essa experiência pode ser vivenciada quando se está preso no trânsito: preso, sem saída, obrigado a respirar a fumaça liberada pelos carros. Mas ele prevê que a reação pública contra o aumento do tráfego não está longe. Embora o número de veículos particulares em Curitiba sejam mais altas que a média nacional, o Transportation Research Board revela que 70% das pessoas que circulam na cidade usam o transporte coletivo como principal meio de deslocamento. 
O próximo passo, diz Lerner, é que essas pessoas nem mesmo comprarão carros no futuro. Se o Brasil e outras cidades puderem cumprir a visão de Lerner de que os usuários de transporte “não devem ter que esperar mais de um minuto” para pegar o ônibus ou trem, essa mudança pode acontecer mais cedo ou mais tarde.


Solidariedade ambiental e o movimento das cidades sustentáveis

Junto à frustração diária perante o trânsito e os congestionamentos, está um crescente sentimento de responsabilidade ambiental individual. Lerner explica que há três questões principais que se colocam frente às cidades e aos cidadãos em sua interação com o mundo: “mobilidade, sustentabilidade e tolerância”. A fim de enfrentar esses desafios, é “crucial ter solidariedade”, ele diz. 
O movimento ambiental do Brasil, de que Lerner é considerado o catalisador, é responsável por tornar os cidadãos mais conscientes dos impactos negativos do uso de veículos particulares – má qualidade do ar, emissões de gases de efeito estufa, diminuição do espaço público e consumo excessivo de recursos naturais, para citar alguns. 
De acordo com Lerner, desde que o movimento mantenha a solidariedade, essa conscientização vai logo se traduzir em uma mudança de uso do carro particular.


Transporte público responsável e de alta qualidade

Talvez o elemento mais crucial da estratégia de Lerner para desmantelar a cultura do carro seja sua meta de significativamente aumentar a qualidade e a responsabilidade dos sistemas de transporte coletivo. Lerner imagina um mundo no qual transporte e urbanismo são inerentemente integrados – onde os sistemas de transporte sejam a espinha dorsal de cidades sustentáveis e acessíveis. 
Para isso acontecer, o transporte coletivo não pode ser apenas uma opção, deve ser a melhor opção. E é por isso que Lerner atualmente atua como presidente honorário da SIBRT, organização dedicada a promover melhores práticas sistemas de transporte integrado e BRT, modalidade em que foi pioneiro. Uma experiência de qualidade para o usuário, dizem Lerner e SIBRT, é a chave necessária para convencer a sociedade a deixar o carro em casa e a optar pelos metrôs, ônibus e bicicletas.
Não importa o assunto, para Jaime Lerner o tempo e o pensamento expansivo são fundamentais: “Às vezes temos boas ideias, mas precisamos começar a inovar. Temos que ser rápidos para evitar a nossa própria burocracia. Nós frequentemente pensamos em termos de problemas, mas qual é o nosso sonho?”

Obrigado a Anais Cisneros, Ryan Schleeter (EMBAR) e Fagner Glinski (SIBRT) por suas contribuições para este texto.

fonte:thecityfixbrasil.com

quinta-feira, 21 de março de 2013

Quando a política mata ciclistas


fonte: superinteressante


Como a política mata ciclistas

por Denis Russo Burgierman


Nunca andamos tanto de bicicleta - e por isso mesmo nunca houve tão pouco espaço para elas. E para mudar isso só há um caminho: acabar com a miopia urbanística dos governantes


Cada um de nós tem uma escolha a fazer sobre como chegar ao trabalho todas as manhãs. Podemos ir de carro, a pé, de transporte público, de táxi, de moto, de bicicleta. Há prós e contras para todas as opções. Ônibus é mais barato, mas também não é nenhuma pechincha: em São Paulo, onde a passagem custa R$ 3, um mês de ida e volta de ônibus custa R$ 180 por pessoa, 30% do valor do salário mínimo. E é infernal: implica muito aperto, muito tempo perdido, muito susto com motoristas estressados... (e quem não se desequilibraria passando o dia no trânsito?).

É tão ruim que uma minoria crescente da população opta por ter um carro. A vida com carro não é boa, mas é muito melhor do que dentro do ônibus. Os vidros fumê, o ar condicionado e a música ambiente dão a sensação de que está tudo bem, apesar de Sodoma e Gomorra lá fora. Ter carro é caro: custa mais de R$ 1 mil por mês, se tudo for colocado na conta (impostos, estacionamento, gasolina, depreciação do veículo). E há vários contras para o resto da cidade: essa opção implica poluição, piora do clima, custos para a saúde. Além dos usuários de transporte público e carro, há quem prefira caminhar (a escolha mais barata), outros andam de táxi. E há quem opte pela bicicleta.

Bicicleta só não é mais barato do que caminhar. E, além do custo baixo, ela é boa para quem pedala (evita obesidade, depressão, doença cardíaca, câncer, melhora o sono, o sexo, a disposição) e para a cidade (reduz o trânsito, não emite poluentes, não piora o clima e reduz gastos públicos com saúde). A prefeitura de Copenhague calculou que, a cada quilômetro que uma pessoa anda de carro, a cidade gasta R$ 0,30. A cada quilômetro pedalado por uma bicicleta, a cidade ganha R$ 0,70 (com o incremento do turismo, por exemplo). Ou seja, abrir espaço para bicicletas é bom para todo mundo.

A boa notícia é que nunca se pedalou tanto. Só na cidade de São Paulo o número dos deslocamentos debicicleta subiu de 47 mil por dia em 1987 para 147 mil em 2007 (data das estatísticas mais recentes). Isso é quase o dobro dos deslocamentos de táxi (78 mil). Em países bem administrados, os cidadãos são estimulados a escolher aquilo que é melhor para todos. Na Bélgica, por exemplo, ciclistas pagam menos impostos. Já no Brasil, pedestres e ciclistas são punidos com a falta de espaço.

O prefeito é o responsável por construir infraestrutura para a cidade. Ele cobra impostos de todos os habitantes e, com esse dinheiro, tem a obrigação de tornar o espaço público adequado para todo mundo. Nas cidades brasileiras, a maior parte dos investimentos no espaço público é tradicionalmente voltada para quem anda de carro - o dinheiro que a prefeitura toma de todo mundo é gasto com um só grupo.

Por quê? Por inércia. Na nossa cultura política, o que rende voto é obra monumental - basicamente grandes viadutos e avenidas. Não por coincidência, as empreiteiras que fazem essas obras são as grandes financiadoras das eleições. Ou seja, o dinheiro doado na campanha volta multiplicado ao bolso de quem "doou". Esse ciclo vicioso, por si só, não é o responsável pela quase inexistência de infraestrutura para ciclistas no Brasil, mas ajuda. É que as obras viárias matam dois coelhos dos políticos com uma cajadada só: rendem contratos gordos para os financiadores de campanha e votos, muitos votos. Mas essa é uma visão caduca.

Não é de hoje que bom urbanismo ganha eleição - e não é exagero concluir que essa tendência vive um auge histórico. O caso do Bike Rio serve de exemplo. Trata-se de um sistema de aluguel de bicicletas a exemplo do Vélib´, de Paris: você aluga a bicicleta num ponto e devolve em outro. Esperavam que o sistema tivesse 7 mil usuários. Pouco depois da inauguração, em outubro de 2011, eram 45 mil. Moral da história: construa uma boa infraestrutura, e a bicicleta como meio de transporte virá - para o bem de todos.

Olhar com atenção para esse assunto não é só uma questão de urbanismo, inclusive, mas de segurança pública. Em março, a ciclista Juliana Ingrid Dias morreu esmagada por um ônibus na Avenida Paulista, em São Paulo. Ela foi uma entre os 3 ciclistas mortos no Brasil naquela semana. José Carlos Lopes, o motorista do ônibus que a matou, disse que a conhecia, que a via todos os dias, que ela era consciente, cuidadosa, educada, "tinha noção do espaço dela". Mas não havia espaço para ela. E enquanto a visão urbanística dos nossos prefeitos continuar míope, as mortes não vão parar.
Ilustração Alexandre Piovann

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

"Automóvel - O supremo bem da vida"


fonte: Texto de Jorge Brand, apresentado originalmente no II Fórum Mundial da Bicicleta – Porto Alegre/RS, 21a24/02/2013.
 O homem de Protágoras na era do automóvel



engarrafamento




















πάντων χρημάτων μέτρον ἐστὶν ἄνθρωπος (“O homem é a medida de todas as coisas” – Protágoras,  480 - 410 a.C.)

A afirmação de Protágoras caberia muito bem aos cursos de urbanismo, ou, melhor ainda, aos próprios institutos que determinam os traçados das vias, os desenhos das quadras e a distribuição dos espaços urbanos. Seria um lembrete constante das limitações que não deveriam ser cruzadas sem a devida reflexão.
NON PLUS ULTRA – Não ir mais além do que os corpos humanos são capazes. Respeitar a medida. E a medida é o corpo. A pólis grega era o local que o olho humano era capaz de abarcar. O horizonte. Aquilo que poderia ser transposto com a força dos pés, ou, talvez, de uma carroça. Não sabemos de relatos de acidentes com carroças nas encruzilhadas. Devem ter acontecido alguns em toda história. As fatalidades deste tipo de sinistro, no entanto, não devem ter sido relevantes.
Apesar de Édipo ter se envolvido, podemos dizer numa briga de trânsito, isto estaria mais para um caso de road-rage do que uma colisão propriamente dita. E Édipo era, no caso, o pedestre da história. Um pedestre ofensivo, intolerante a violência da arrogância de Laio, do alto de seu carro.
A medida, no urbanismo de Protágoras, por assim dizer, é a que respeita o homem e a fragilidade do corpo humano – essencial para se salvaguardar a integridade do corpo. Ultrapassando esta medida, seja com velocidades inumanas, ou com traçados viários exclusivos para os carros e motores em geral, o número assombroso de mortes se insinua como um dado macabro, que sequer causa espanto e indignação em nossos urbanistas. E é a eles que dirigimos nossa polêmica.
Em 1959, os Situacionistas publicaram um breve manifesto. O texto de Guy Debord, publicado na Internacional Situacionista número 03, em dezembro daquele ano, é de uma clareza provocadora e de uma crítica precisa e profética, que escandalizaria muitos de nossos urbanistas conservadores que ainda hesitam em priorizar o corpo humano e a escala humana.
Afirmou Debord:
                        “O erro de todos os urbanistas é considerar o automóvel individual (e seus subprodutos, como a motocicleta) essencialmente como meio de transporte. A rigor, ele é a principal materialização de um conceito de felicidade que o capitalismo desenvolvido tende a divulgar para toda a sociedade. O automóvel como supremo bem de uma vida alienada e, inseparavelmente, como produto essencial do mercado capitalista está no centro da mesma propaganda global: ouve-se com frequência, este ano, que a prosperidade econômica norte-americana dependerá em breve do êxito do slogan: ‘Dois carros por família’.”
Sim, os carros reforçam a divisão da sociedade em classes e estimulam a corrida pelo consumo. O seu carro de cinco anos atrás já é visto como uma ‘lata velha’, seu valor de troca se esvaiu, apesar de seu valor de uso ainda permanecer praticamente o mesmo. Se em 1959 o ideal norte-americano eram dois carros por família, curiosamente, este mesmo ideal, junto com todo pacote cultural exportado por aquele país, aparece agora aqui, perto de nós, em propagandas imobiliárias que falam de 4 ou mais vagas de estacionamento nos novos empreendimentos, nomeados, quase todos, com termos anglófonos.
Laerte carros 03














A alienação também acontece em diversos sentidos. O sujeito, refém da motorização individual, restringe sua experiência da cidade ao ‘conforto’ de seu automóvel. Ignora as árvores floridas. Buzina quando encontra um conhecido. Passa longe daquilo que sempre foi o porquê de se viver em sociedade – o convívio, o encontro – programado ou fortuito.

Não é de se espantar que a proliferação dos centros de compra avance junto a onda crescente que sufoca nossas cidades com sujeira, barulho e violência. O automóvel não é, lembrando de Illich, uma ferramenta convivial. Ele não favorece e tampouco enriquece o convívio das pessoas nos centros urbanos. Disse Illich:
                        “As ferramentas conviviais que facilitam o desfrute dos valores de uso da pessoa se concentram em dois extremos: os operários asiáticos pobres e os estudantes e professores ricos são os dois tipos de pessoas que andam de bicicletas.” [O Direito ao Desemprego Criador, p. 66]
Mais direcionado aos próprios urbanistas, Debord escreveu:
                        “Querer refazer a arquitetura em função da existência atual, maciça e parasitária dos carros individuais é deslocar os problemas com grave irrealismo. É preciso refazer a arquitetura em função de todo o movimento da sociedade, criticando todos os valores efêmeros, ligados a formas de relações sociais condenadas (a família é a primeira delas).”
E ainda:
                        “Não se trata de combater o automóvel como um mal. Sua exagerada concentração nas cidades é que leva à negação de sua função; é claro que o urbanismo não deve ignorar o automóvel, mas menos ainda aceitá-lo como tema central. Deve trabalhar para o seu enfraquecimento. Em todo caso, pode-se prever sua proibição dentro de certos conjuntos novos assim como em algumas cidades antigas.”
Estranho observar como qualquer restrição que seja sugerida a circulação dos autos é imediatamente rechaçada pela nossa massa a-crítica. Insinua-se que isto é a perda de direitos fundamentais. Não se pode restringir o ir e vir . . . dos carros!! Pois bem, que venham os congestionamentos monstruosos. Que aumentem todos os anos as cifras assustadoras dos óbitos e mutilados. Que as calçadas sejam encurtadas ou mesmo suprimidas. Quem se arriscará a andar a pé numa cidade planejada – para os carros?
Em contrapartida, queremos reafirmar a prática essencial da filosofia. O questionamento e a reflexão. Queremos que seja possível duvidar dos dogmas e que os tabus sejam postos em discussão. Diríamos, então, aos nossos urbanistas, que a cidade deve ser feita para os pés, não para as rodas.
A cidade é o aglomerado de corpos que decidem viver juntos. Os corpos se deslocam na cidade. Ocupam o espaço e compartilham um mesmo tempo. Os corpos são iguais em suas desigualdades múltiplas. São todos frágeis. São corpos de sangue. Precisam de alimento, ar, água, produzem dejetos e se cansam com o deslocamento. Todos os corpos se cansam. O motorista se cansa dos congestionamentos, dos sinais vermelhos, do tempo que perde sentado em sua ‘bolha’. O usuário do transporte coletivo se cansa com as filas de espera, a falta de espaço, os atrasos. O motorista e o passageiro, sedentários, são, ainda por cima, instados a frequentar academias para cuidar da saúde!
O pedestre e o ciclista se cansam pela fadiga direta dos músculos e também pela ausência de bons passeios e ciclovias. O corpo se cansa com qualquer coisa. Nosso esforço geral é sempre na direção de silenciá-lo. Calá-lo. Saciá-lo. Dar conforto – ou seja, ausência de dor – lembrando-nos de Schopenhauer. Em uma palavra, alívio.
O corpo, no entanto, dói. É apertado, se junta de forma demasiada em ônibus ou trens lotados. Ganha escolioses, cifoses e lordoses nas filas do coletivo ou em seus bancos de espera feitos para se encostar, não para apoiar os ísquios cansados.
Na motorização do transporte o corpo é passivo. É corpo que obedece, subjugado e oprimido pelos congestionamentos crescentes, ou esmigalhado, feito miga, mutilado e violado pelas altas velocidade contra este objeto que não tem a dureza do aço ou a flexibilidade do plástico. O corpo de carne é frágil, se quebra com facilidade. Sangra. Se esvai como a água que o constitui como elemento majoritário.
Laerte carros 01-001
E por que o urbanismo não deve levar em consideração nossa natureza sanguínea (sua fragilidade) em seus mandos e desmandos que transformam a experiência que temos da cidade e por conseguinte de nós mesmos?
O corpo, domesticado pela régua do urbanismo, condicionado a cultura do automóvel, deixa de ser experimentado positivamente, ele é transportado, não se transporta; é conduzido, não conduz; É passivo, paciente, sofre com resignação seu trágico pathos. Não descobre por si a cidade onde vive, pois seus caminhos, rotas e ruas, são desenhados nas pranchetas. As ruas uniformizadas e o estímulo a motorização levam, com cada vez mais rapidez, ao empobrecimento da realidade.
As formas não motorizadas de locomoção podem nos conduzir a uma experiência direta da presença do corpo, e nisto há um germe de resistência a alienação. O corpo vivo, o corpo presente, acompanha o pedestre e o ciclista como sua sombra. Da mesma forma, a cidade viva, com seus riscos e encantos, se descortina aquele que a experimenta com o corpo, vivo. Aos demais, resta a assepsia dos centros de compra, nos quais a experiência dita urbana é condicionada diretamente pelas regras de conduta do capital.
Curitiba, com sua motorização elevada, parece deixar alguns orgulhosos dos engarrafamentos, do barulho onipresente e do ar poluído; outros, nostálgicos e revoltados, com a falta de diálogo com que ações de grande impacto são realizadas de forma autoritária e tecnocrática. A destruição de praças no Mercês, no Cristo Rei e no Alto da Glória servem todas ao mesmo objetivo – a fluidez do trânsito dos automóveis. A descaracterização da cidade acontece em alta velocidade.
Monstruosos painéis luminosos são inseridos sem consulta prévia com os moradores, transformando a estética residencial com figurino de corrida automobilística. Não é de se espantar que o atual governador já manifestou diversas vezes a intenção de fazer corridas de automóveis na malha viária urbana. Não deveria o urbanismo ouvir os cidadãos bem como levar em consideração todos os dados assombrosos da violência e mortandade de nosso violento trânsito?
A presidente Dilma, mês passado, anunciou novamente a prorrogação da isenção do IPI às montadoras. Anunciou publicamente no 51o Salão do Automóvel que o governo vai abrir mão, por mais 3 meses, da arrecadação do justo imposto. Ressaltou a pujança da economia brasileira. Não disse nada sobre o trânsito ‘civilizado e equitativo’ de nossas cidades. Não falou sobre a poluição do ar e ignorou, mais uma vez, todos os dados – os fatos – que estão aí em nosso dia a dia. A experiência urbana, como dissemos, se empobrece na medida que ‘todo brasileiro’ quiser andar de carro para o trabalho, para escola, em suas necessidades diárias de deslocamento.
Presidenta Dilma despreza solenemente, com orgulho de garota propaganda, o pensamento de Protágoras e os alertas de todos os urbanistas conscientes. Ignora também o alerta de André Gorz em seu belo texto ‘Carta a D.’, dirigindo-se a sua amada:
                        Terminamos, depois de dez anos, comprando um velho Austin. Ele não nos impediu de tomar a motorização individual como uma escolha política execrável, que dispõe os indivíduos uns contra os outros, pretendendo lhes oferecer um meio de subtrair-se ao lote comum.”
Laerte carros 02








É sem dúvida uma coisa boa podermos comprar carros, geladeiras, computadores e tudo o mais que julgamos essencial. Mas, ficar preso em congestionamentos não é uma experiência gratificante, de engrandecimento pessoal. Queremos um transporte público mais barato e mais eficiente, que se beneficie igualmente das isenções tarifárias e subsídios múltiplos dos quais a indústria automobil
ística se farta, esfregando todos os meses em nossa cara seus novos e espantosos recordes de vendas. Queremos uma cidade mais limpa em todos os sentidos.

A perversão maior é que muita gente deixa de optar pela bicicleta, ou o caminhar, para os trajetos curtos e se vê refém do automóvel e seu monopólio radical. As ruas estão sendo asfaltadas para o fluxo dos carros, não das pessoas. Se assim fosse teríamos, nos semáforos, ondas verdes e mais espaços exclusivos para o transporte coletivo.
Teríamos uma rede de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas conectando todo o centro da cidade, os centrinhos dos bairros e uma integração, muito bem feita, com a rede de ônibus. Teríamos conexão com a região metropolitana, segura e ágil. Teríamos também garantido o acesso seguro às escolas por meio de bicicletas.
Como não é esta a realidade em que vivemos, vêm a mente o discurso do ‘macaco de Zaratustra’, o louco com espuma na boca que vocifera nos portões da grande cidade contra os males que ali existem. Diz o louco: “Por tudo o que tens de luminoso e bom e forte, Zaratustra! Cospe nesta cidade de merceeiros e volta atrás! Cospe na grande cidade e volta atrás!”
Zaratustra, por sua vez, calando o louco, diz:
                               “Também a mim me causa náusea esta grande cidade, e não somente a esse louco. Nem nela nem nele, nada mais há que possa melhorar-se ou piorar-se. Ai desta grande cidade! – E eu gostaria de ver desde já as colunas de fogo em que arderá. Porque essas colunas de fogo deverão preceder o grande meio-dia.
Gostaríamos de concluir estes pensamentos contradizendo o discurso de Zaratustra sobre aGrande Cidade, afirmando que melhorias podem acontecer, por mobilização ativa, pelo florescimento de uma Massa Crítica e, acima de tudo, por nossa capacidade inata de imaginar e sonhar outras realidades.
Como afirmou Marc Augé em seu belo Éloge de la Bicyclette:
“A bicicleta nos ensina, inicialmente, a conjugar o tempo e o espaço. É necessário que redescubramos o princípio de realidade em um mundo invadido pela ficção e pelas imagens. O ciclismo é um humanismo e ele abre de novo a porta do sonho e do futuro.”
Goura Nataraj, Scorpius, 012

Texto : Jorge Brand – Mestre em Filosofia pela UFPR e Coordenador Geral da Associação de Ciclistas do Alto Iguaçu (Curitiba/PR)
Título original: “O corpo urbano em deslocamento ou O homem de Protágoras na era do automóvel”
Apresentado originalmente no II Fórum Mundial da Bicicleta – Porto Alegre/RS – 21-24/02/2013

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Ford, Chrysler e GM reconhecem queda da taxa de uso do automóvel e ascenção no uso dos transportes alternativos

fonte: Diário Gauche

 

Montadoras dos EUA repensam o uso social do automóvel particular



As três grandes montadoras estadunidenses estão atentas ao crescente envolvimento com alternativas à posse de um carro particular, como bicicletas elétricas e ônibus, em meio à redução da taxa de uso e de propriedade de automóveis. A informação é do jornal Valor, de 27/dez/12.

Ao fazer isso, GM, Ford e Chrysler reagem a dados que revelam que os jovens estão adiando as aulas de direção e que aumentou o número de jovens profissionais de alta qualificação que mudam para os centros metropolitanos, onde o uso de automóveis é dificultoso.

As montadoras estão cada vez mais envolvidas em serviços locais de carsharing (que alugam carros por períodos curtos, cobrando por hora ou por dia) para atender profissionais urbanos que precisam, eventualmente, de um automóvel mas preferem evitar ter um permanentemente.

O novo raciocínio representa uma mudança significativa para empresas que no passado estimularam a persistente guinada, em muitas áreas dos Estados Unidos, para uma dependência quase total do carro particular. A Ford reconheceu que haverá ocasiões numa cidade como Londres em que uma pessoa que vai e volta todo dia do trabalho concluirá que o transporte por trem faz mais sentido.

Entre as reações da GM está seu investimento - elevado em novembro - na Proterra, uma fábrica de ônibus elétricos instalada na Carolina do Norte. A empresa também está avaliando se começa ou não a produção industrial, a venda ou a administração de sistemas de uso compartilhado de bicicletas elétricas.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A mulher que transformou Nova York no paraíso dos ciclistas

fonte: folha de são paulo


Nova York virou paraíso dos ciclistas graças a uma mulher
 porRAUL JUSTE LORES
 
 
24 horas depois do furacão Sandy atingir Nova York, em 28 de outubro, o prefeito Michael Bloomberg anunciou que a secretária de Transportes, Janette Sadik-Khan, tinha um plano para o caos que se instalou no trânsito da cidade --sem metrô e sem semáforos, graças ao blecaute.
 
 
"Só carros com três passageiros ou mais poderão entrar em Manhattan. Até o fim de semana, os ônibus circularão com a catraca livre", determinou.
 
Os nova-iorquinos já se acostumaram com as medidas às vezes radicais da mulher que manda no trânsito da maior cidade americana.
Em cinco anos no cargo, a superpoderosa secretária de Transportes de Nova York abriu 450 km de ciclovias, 50 km de corredores de ônibus e fechou várias praças aos carros --a mais famosa delas, a Times Square, tornou-se um grande calçadão.
Reduziu o número de pistas da Broadway pela metade, dobrando as calçadas dos dois lados e espalhando cadeiras e mesinhas.
 
 
 
 
 

 
Ciclovias reduziram em 40% o número de acidentes com ciclistas,
diz secretária dos Transportes de Nova York.
 
 
 
 
Pela velocidade com que está transformando a paisagem nova-iorquina, ela é amada por ciclistas e odiada com igual intensidade por taxistas.
 
Magra, com corpo forte de quem pedala e faz ioga, um orçamento anual de R$ 4 bilhões e mais de 4.500 funcionários em sua equipe, Janette, 51, é igualmente retratada em reportagens de urbanismo e em publicações de estilo.
É uma rara política de olfato fashion, bronzeada e de corpo torneado, destoando do clichê das burocratas de tailleurs.
Formada em ciência política e em direito pela Universidade Columbia, era vice-presidente de uma grande empresa de engenharia quando foi "descoberta" por Bloomberg.
"Antes, a política de transporte se resumia a aumentar a velocidade dos carros na cidade. Para mim, o mais importante de tudo é priorizar o pedestre, o ciclista e o transporte público", disse à Serafina, em seu escritório, em um arranha-céu com vista para o East River e o Brooklyn, no distrito financeiro de Manhattan.
 
 
 
SECRETÁRIA DAS BIKES
 
"Diziam que os lojistas da Times Square perderiam muito dinheiro quando fechássemos a praça ao trânsito, e o contrário aconteceu. A renda do varejo duplicou em três anos, a frequência triplicou, e os pedestres, quando podem circular em paz, acabam gastando mais ali", explica.
"O espaço para carros e pedestres estava distribuído de forma desigual, havia 70 pedestres para cada dez carros."
Depois dessa experiência, ela acabou fechando pistas ao lado da Madison Avenue e da Herald Square e transformando parte da Broadway em um semicalçadão. Mais de 50 pracinhas como essa foram criadas em quatro anos.
 
"Tudo foi feito de forma simples, com mesas e cadeiras baratas. Se desse certo, faríamos algo de longo prazo, com design melhor", conta, dizendo que as obras definitivas para a nova Times Square começam no final do ano, com projeto dos arquitetos do escritório norueguês Snohetta.
Os críticos da secretária, entretanto, a acusam de impor esses "testes" como algo permanente. "Mudar um banco de praça na cidade pode levar anos de burocracia. Por isso, fazemos algo mais simples, de forma direta, para medir o resultado", rebate.
 
Janette também recebeu saraivadas pela pressa com que implantou as ciclovias (em cinco anos, ela fez 450 km; São Paulo tem 55 km de ciclovias e 67 km de ciclofaixas, que funcionam aos domingos).
A secretária já foi processada por moradores do bairro Prospect Park, no Brooklyn, que se opunham à ideia (eles perderam a ação).
O tabloide "New York Post" fez piada com o seu cargo e a chamou de "secretária das bicicletas". Mesmo gente da prefeitura já criticou a extensão das ciclovias.
O secretário de Segurança, Ray Kelly, disse que nem sempre concorda com ela e que "a criação das ciclovias aumentou a responsabilidade dos policiais em tempos de mão de obra escassa".
 
Ela defende a cria: "As ciclovias reduziram em 40% o número de acidentes com ciclistas na cidade. Quando o ciclista precisa se aventurar no meio dos carros, sem proteção, ele é muito vulnerável, como acontece com os pedestres".




 

 
Janette Sadik-Khan, a poderosa secretária de Transportes de Nova York
Janette Sadik-Khan, a poderosa secretária de Transportes de Nova York,
na Times Square
 
 
 
 
Outra obsessão da secretária é aumentar a velocidade dos ônibus. "Eles precisam ser competitivos com o carro e o metrô."
Janette fez um estudo que listou 400 variáveis que interferem na velocidade dos veículos, da cobrança da passagem à maneira como a cidade poda suas árvores, asfalta as ruas ou bloqueia os maiores cruzamentos. "Vamos resolver um por um", promete.
"Trabalho para Bloomberg, que é movido a números. Preciso ter todos os dados na ponta da língua", brinca, e dá uma risada alta. Fica evidente que adora o que faz.
 
Não para de receber pedidos de missões de prefeitos e governos, de Istambul ao México e outras grandes cidades americanas, que querem conhecer suas soluções mais de perto.
Circulando agitada pelo escritório, enquanto mostra gráficos e maquetes do que está por vir em Nova York, ela conta que o programa de compartilhamento de bicicletas (que já existe em São Paulo e no Rio), inspirado nos sucessos de Paris e Barcelona, só começará em março.
 
"Estamos chegando tarde, mas será um dos melhores do mundo, com 420 postos e 10 mil bicicletas", promete.
 
 
 
SÃO PAULO
 
Mas ainda há lombadas no trabalho da secretária. Apesar da queda de 75% nas mortes em acidentes de trânsito entre 2007 e 2011, um estudo preliminar da prefeitura diz que as mortes voltaram a subir entre julho de 2011 e junho de 2012.
Segundo esse estudo, o número de mortes anuais no trânsito de Nova York está em 291 (na cidade de São Paulo, são cerca de 1.200).
Mais da metade dessas mortes foi causada por motoristas alcoolizados e desrespeito ao sinal vermelho.
Ela diz que já identificou 25 cruzamentos onde a população de terceira idade se concentra.
Quer que o semáforo seja um pouco mais lento nesses lugares, para permitir que os mais velhos atravessem com segurança.
E vai começar uma nova campanha educativa para os nova-iorquinos, que insistem em atravessar a rua enquanto mandam mensagens de texto pelo celular.
 
"Todo nova-iorquino se acha um engenheiro de tráfego, cheio de soluções, mas estão muito desatentos na hora de atravessar", reclama.
 
Janette, que mora com o marido e o filho adolescente no Village e pedala para ir ao trabalho todos os dias, já esteve várias vezes no Brasil, onde sua cunhada morou alguns anos, em Salvador. "Adoro Trancoso, Paraty, Rio, Bahia, São Paulo, a música brasileira, a cultura, as pessoas."
 
Pergunto se o trânsito de São Paulo tem jeito. "Claro. O solo paulistano é mais propício que o de Nova York para o metrô, e transporte de massa é a solução", diz. "Vocês têm uma cultura vibrante, mas precisam aprender a valorizar o espaço público e o pedestre", alerta.
"Hoje em dia, empresas e talentos podem escolher onde se instalam, a tecnologia facilitou a mobilidade. Quem tiver uma cidade interessante, onde se possa caminhar, conhecer gente, sem ficar preso no trânsito, vai sair na frente na atração de investimentos."
Ela compara com sua cidade: "Em Nova York, só um terço das pessoas vai de carro para o trabalho. E esse número não pode crescer".

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

"Andar de bicicleta é mais difícil que dirigir carro", diz pesquisa.

fonte: biciclotheka



 
 Andar de bicicleta, um turbilhão sensorial

 
Nos primórdios deste blog, escrevi um artigo sobre gênios que andam de bicicleta. Schrödinger, Niels Bohr, Einstein em sua famosa foto.
 
Catherine Hess vai além e afirma que todas as pessoas que andam de bicicleta são geniais. Ou dizendo de outra forma – sem apelar para a hipérbole: todo ciclista usa capacidades excepcionais do ser humano, ainda desconhecidas pela ciência.
 
E quem é Catherine Hess? Pesquisadora posgraduada em antropologia na Universidade de Bournemouth, cidade do litoral sul da Inglaterra. Catherine Hess ganhou esta semana a menção honrosa do prêmio Wellcome Trust science writing prize com o ensaio “As easy as ride a bicycle?”.
 
 
 
 
 
 
Eis a seguir o artigo, na íntegra, traduzido por mim. Os links internos levam a textos em inglês (que também serão traduzidos e postados aqui no blog):
 
 
Tão fácil como andar de bicicleta?
Catherine Hess
 
 
A maioria de nós se lembra da primeira bicicleta. É um rito de passagem, simbolizando nossa transição de criança “pequena” para criança “grande”. Ainda mais emocionante é o dia em que conseguimos dar o primeiro passeio sem rodinhas. O que a maioria de nós não percebe é quão complexa a arte de andar de bicicleta realmente é. Tão complexa, de fato, que pesquisadores estão apenas começando a investigar como é possível nós conseguirmos nos impulsionar em duas rodas finas, constantemente balançando para frente e para trás com o movimento de nossas pernas; simultaneamente nos deslocando por várias superfícies enquanto tentamos evitar inúmeros obstáculos.

Mais extraordinário ainda é o que o ato de andar de bicicleta pode nos dizer sobre o cérebro humano. Em 2010, pesquisadores da Holanda publicaram um dramático estudo de caso no New England Journal of Medicine. Médicos pesquisadores na Radboud University, em Nijmegen, examinaram pacientes que sofrem com a doença de Parkinson, uma doença neurológica que resulta em tremores e movimentos musculares involuntários. Em casos graves, o Parkinson afeta o equilíbrio, a coordenação e o controle de pernas e braços e pode deixar os pacientes incapazes de andar ou realizar tarefas básicas.

Um destes pacientes, um homem de 58 anos, sofreu o que os pesquisadores chamam de “congelamento da marcha”. Ele era incapaz de andar ao ponto de precisar de guias visuais para ajudá-lo a colocar um pé na frente do outro. Era incapaz de virar-se durante a caminhada. Depois de alguns passos o paciente perdia o equilíbrio e exigia sua cadeira de rodas.

Surpreendentemente, no entanto, este paciente ainda consegue andar de bicicleta. Impecavelmente. Este video, apresentado com o estudo de caso publicado (e agora disponível no YouTube), mostra o paciente, com fortes tremores em seus braços, arrastando-se lentamente e erraticamente por um corredor, enquanto é guiado por outra pessoa. Após alguns passos, ele começa a tropeçar até cair no chão.

Num segundo vídeo, ele é visto andando de bicicleta com movimentos e equilíbrio perfeitos, os tremores acentuados em seus braços se foram e ele pedala num ritmo consistente e com perfeito equilíbrio e coordenação. Ele pedala longe da câmera, se vira e pedala de volta, reduzindo a velocidade até parar e desmonta perfeitamente. Uma vez desmontado, no entanto, é incapaz de caminhar.

Este fenômeno é chamado cinésia paradoxal. Embora os mecanismos envolvidos ainda não sejam compreendidos, o conhecimento é inestimável. Pode levar a novas formas de terapias e exercícios físicos para pessoas com doença de Parkinson ou outras doenças neurológicas que afetam o movimento, coordenação ou equilíbrio.

Atualmente, o “aviso da bicicleta” está sendo sugerido como uma maneira eficaz e barata para diferenciar entre o Parkinson e uma forma mais rara e atípica da mesma doença. Um modo de diferenciar as duas doenças é a capacidade ou a perda da capacidade de andar de bicicleta. Os indivíduos com Parkinson que sabiam andar de bicicleta antes do início dos sintomas mantêm a capacidade de pedalar. Aqueles com o Parkinson atípico não conseguem.

Mas como é possível um homem andar de bicicleta quando ele vive, na verdade, preso a uma cadeira de rodas? Mais admirável ainda, como é que alguém se adapta ao turbilhão sensorial que é andar de bicicleta? As equipes de investigação da Universidade da Califórnia, em Davis, nos Estados Unidos, e na Universidade de Delft, Holanda, estão tentando descobrir. O que eles descobriram é surpreendente.

Presumimos que andar de bicicleta é tão fácil como, bem, como andar de bicicleta, acontece, porém, que não é nada disso. Liderados pelos professores Mont Hubbard e Ron Hess, pesquisadores americanos estão tentando modelar as interações homem-bicicleta de forma semelhante às interações piloto-avião ou motorista-carro. No entanto, há muitos mais processos físicos e neurológicos envolvidos no andar de bicicleta do que dirigir um carro.

“Andar de bicicleta envolve o uso contínuo de todas as capacidades sensoriais primárias do ser humano, visual, vestibular [equilíbrio] e proprioceptivo [a consciência do próprio corpo e do posicionamento dos membros]“, diz Hess. “O último envolve sensores nos braços que fornecem informações sobre os estímulos de controle da direção. O que é mais interessante ainda é a capacidade dos ciclistas treinados para andarem de bicicleta ‘sem as mãos’”.

Uma pesquisa recente da Universidade da Califórnia, Davis, demonstrou como movimentos sutis do corpo do ciclista permitem fazer isto.

“Imagine tentar esta técnica de controle em um automóvel ou um avião”, diz Hess.

O objetivo desta pesquisa é entender como o ciclista interage com o meio ambiente e a bicicleta, e desenvolver bicicletas que maximizem o desempenho, para um ciclista do Tour de France ou um ciclista deficiente necessitando de maior estabilidade ou controle.

O que está claro a partir de pesquisas tanto sobre o cérebro humano quanto sobre a bicicleta é que, apesar da simplicidade da bicicleta, ainda temos muito que aprender sobre como conseguimos controlá-la, e o que acontece no cérebro quando fazemos isto. Nosso primeiro passeio vacilante de bicicleta, então, torna-se um evento muito mais extraordinário do que imaginávamos.